quarta-feira, 11 de junho de 2008

Cruzeiro do Sul


Com a mão direita e uma calma postiça, afastas a madeixa de cabelo que me desce ao rosto; colocas a outra mão por entre a alça do sutiã e estica como uma fisgada de ir aos pardais, me dedilhas até o umbigo, num som bom de Chopin; me percorres os nós dos dedos com a ponta da língua, como um chef que provasse uma receita nova e aferisse a medida exata de sal; engalfinhas ao redor da minha cintura e me enredas no interior das tuas pernas, enquanto me sussurras que o que fazes e aconteces e que isto e que aquilo; gargalhas alto, de modo quase inconveniente, essa tal inconveniência que eu adoro, quando não encontras roupa alguma nem interior, aproveita para te encaixar em mim como um teste; me faz cócegas, me faz rir, me faz amor e trocamos tudo em miúdos em dia de feriado. Somos os únicos ali e acabamos cansados, línguas de fora como cães, barrigas para cima a olharmos as estrelas do nada surgidas e o que será que está para além delas. Plenos, satisfeitos e indiferentes ao que não sabemos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Santa chuva


Vai chover de novo, deu na tv que o povo já se cansou
de tanto o céu desabar,
e pede a um santo daqui que reza a ajuda de
Deus, mas nada pode fazer se a chuva quer
é trazer você pra mim,
vem cá que tá me dando uma vontade de chorar, não faz assim,

não vá pra lá, meu coração vai se entregar à tempestade
Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher? Você me parecia tão bem,
A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar,
Quem foi que te ensinou a rezar? Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez? Devolve aquela minha tv que eu
vou de vez,
não há porque chorar por um amor que já morreu,
deixa pra lá, eu vou, adeus.

Meu coração já se cansou de falsidade!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Emoção e paixão


Emoção é um sentimento abrupto, súbito, repentino, arrebatador, que toma de assalto a pessoa, tal e qual um vendaval. Ao mesmo tempo, é fugaz, efêmero, passageiro, esvaindo-se com a mesma rapidez. A paixão ao contrário, é um sentimento lento, que, se vai cristalizando paulatinamente na alma humana até alojar-se de forma definitiva. A primeira é rápida e passageira, ao passo que esta última, insidiosa, lenta e duradoura. A emoção é vulcão que entra em erupção; a paixão, o sulco que vai sendo pouco a pouco cavando a terra, por forças das águas pluviais. A emoção é o gol marcado pelo seu time; a paixão, o amor que se sente pelo clube, ainda que ele já não lhe traga nenhuma emoção. A ira momentânea é a emoção, o ódio recalcado, a paixão. O ciúme excessivo, deformado pelo egoístico sentimento de posse, é a paixão em sua forma mais perversa. A irritação pela cruzada de olhos da parceira com um terceiro é pura emoção.

quarta-feira, 28 de maio de 2008


"ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo as folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como e devoraria você ah se ousássemos, não ousaria dizer que te vás, nem que te amo, apesar de tudo ser a mais pura verdade."

Ultimamente, todas as minhas reflexões sobre turbulências ou impasses em relacionamentos homem-mulher podem ser resumidas na frase-tema: É mais burralda quem varia as burrices com um mesmo homem ou quem varia os homens com as mesmas burrices? Cada vez mais eu tenho a certeza de que a primeira opção é a mais pura verdade.

Ser burra quando se ama é, no mínimo, natural. Mas acho que chega até a ser requisito básico: se você não comete burrices, não ama. E afirmo isso porque, mesmo quando não se é enganada/traída e se é plena e fielmente correspondida, só o fato de estar apaixonada faz com que cometamos aquelas bobeiras deliciosas da paixonite-aguda, tipo falar que nem criança ou fazer uma tatuagem com as iniciais do futuro-ex para depois tirar com laser.

Ou seja: a burrice é intrínseca ao ser humano que realmente ama. Então, nem me venha botar a culpa naquele safado que pegou a sua prima. A burrice é só sua, que acreditou nele. Se a virtude da burrice é sua, a culpa da burrice também é única e exclusivamente sua. (E nem adianta usar isso como desculpa pra tentar colocá-la em alguém, tipo “se é minha, eu a coloco em quem quiser”.)

Sendo assim, podemos concluir que burra você sempre vai ser, com as suas burrices características, pensando da mesma maneira e se iludindo com os mesmos sonhos. A única variável que resta nessa história é a outra pessoa. É dela que depende apenas um detalhe: se você é ou não deprimentemente burra.

O que estou tentando dizer é o seguinte…

Variar de homens com a mesma burrice significa simplesmente que você está sendo você mesma e, se ainda não deu certo com alguém, alguma hora você chega lá, encontrando alguém que te faça cometer apenas aquelas burrices boas de que falei. Você quebra a cara por uma boa causa, pelo simples motivo de que, se você não experimentar, você não vai saber. Tentativa e erro, só isso. Um dia acertamos, essa é a lógica da vida.

Por outro lado, se você varia as burrices (ruins) com o mesmo homem, acredite, você está sendo burra não no sentido burráldico/amoroso, mas no sentido literal e intelectual da coisa. Até porque, uma pessoa que te faz uma coisa ruim uma vez, vai fazer sempre. E, a não ser que você seja masoquista, isso não é nem um pouco legal. Olha, “colega”, até os hamsters aprendem que, quando tocam a campainha 1, ganham comida e, quando tocam a campainha 2, levam um choque – e param de apertar a tal da campainha 2. Por que você continuaria apertando?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ufa, que aqui já não estás. Chorei pelo dia que fostes. Saíste suavemente, pela ponta da língua, dos dedos, dos cabelos. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada. Te escoei, apenas. Vieste agarrado a umas poucas lágrimas, apanhaste boleia nelas, como se descesses uma onda, e escorreste pela minha cara até o chão. Eu, a fungar e a limpar o caminho, e tu, a saíres aos poucos: primeiro um braço, depois o outro, a seguir as pernas, os pés, o sorriso, depois você, inteiro. Não sei que fenômeno físico se deu, que reação química ocorreu, para que me desintoxicasse assim de você, finalmente frígida, finalmente fútil. Escorreu a vontade de te rever, esqueci aquilo que ainda achava ter para te dizer; esgotaram-se as saudades que éramos suposto, um dia destes a matar, com horas de conversa fiada e vista para o rio. Hoje, pergunto como foi possível, ter durado tanto tempo, aquele estranho amor invertebrado, teimoso e atrevido; ter marinado, curtido, defumado, assim, dentro de mim. Agora sou livre, constato, sem esforço: não mais as pernas apertadas de desejo nas curvas traiçoeiras da noite. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada, apenas deixar o tempo e a distância, obreiros do desamor, trabalharem entre nós, cavando a dissolução dos contornos do outro. Ufa, que aqui já não estás. Chorei. Coração já preenchido e você? Não mais.

A voz


Espera aí,
Nem vem com essa história
Eu nem quero ouvir
Não dá pra te esquecer agora
Como assim?
Você disse que me amava tanto ontem
Eu juro que ouvi
Calma aí!
Que diabo você tá dizendo agora?
Que onda é essa de outro lance pra viver?
Você nem pode tá falando sério
Vivi pra você
Morri pra você
Pois então vai
A porta esteve aberta o tempo todo, sai
O que está esperando? Você sabe voar
Então tá bom
É, senta e conta logo tudo devagar
Não minta, não me faça suportar
Você caindo nesse abismo enorme
Tão fora de mim
Tá legal
É, e eu faço o quê com a nossa vida genial?
Cê vai viver pra outra vida
E eu fico aqui
Na vida que ficou em minha vida
Tão perto de mim
Tão longe de mim
Pois então vai, a porta esteve aberta o tempo todo
Sai! Quem tá lhe segurando? Você sabe voar
Mas se quiser, vai
A porta na verdade nem existe, sai
O que está esperando? Você sabe voar De volta pra mim
De volta pra mim...